Faça o que eu digo, não o que eu faço
Confesso que aboli totalmente do meu radar qualquer notícia referente à crise do Euro. Não tenho interesse no assunto e acho absolutamente desproporcional o espaço que é dado a ela pela mídia nacional. Falam da globalização e do mundo conectado, de como todos sofreremos as conseqüências das crises européias e americanas. Bobagem.
A verdade é que o Brasil vai continuar crescendo nos próximos anos, apesar da crise na Europa ou Estados Unidos. Isso vai acontecer, independentemente do que digam os analistas de plantão, em função de vários fatores. É como se as estrelas estivessem alinhadas a nosso favor.
O principal fator é sem sombra de dúvidas a força do nosso mercado interno. Quando colocamos juntos o crescimento da economia, da renda e da classe média com uma demografia incrivelmente favorável para os próximos 20 a 30 anos, temos a base para esse otimismo. Somente nos próximos 20 anos serão formadas 35 milhões de novas famílias no Brasil, querendo consumir, comprar casa e jogando força de trabalho na economia. Muitos lembram que a nossa situação econômica e demográfica lembra muito a dos Estados Unidos na década de 50.
Quando agregamos a essa base o nosso isolamento e pouca dependência externa, a expansão do crédito, a potência que somos na produção de commodities, em um mundo sedento por elas, o sistema financeiro sólido e saudável e o início da produção do pré-sal, acabamos por dar um tempero inigualável à economia brasileira, que tem sabor especial em função da democracia e estabilidade política que conquistamos.
É claro que no caminho existirão altos e baixos, períodos de euforia, como os do ano passado, seguidos de períodos de cautela, como o que estamos passando. Mas isso faz parte da economia, como sabe qualquer aluno de economia 1. O importante é as pessoas não se deixarem contaminar pela euforia, nem pelo medo. O importante é elas saberem que NECESSARIAMENTE cada período de euforia será seguido de um balde de água fria e vice-versa. Porém, no longo prazo, temos fundamentos sólidos e é com base neles que devemos planejar nosso futuro.
E aí chegamos aos fundamentos. Quem garante que eles permanecerão sólidos por muito tempo? Aí entra o Governo. Eu, particularmente, ando impressionado com a capacidade de gerenciamento macroeconômico do Governo Federal, em especial nesse primeiro ano Dilmista.
A melhor palavra para descrever a gestão econômica do governo é “pragmática”, sem ideologias nem os embates entre “Desenvolvimentistas” e “Monetaristas” da era FHC. Ou seja, está fazendo o que funciona, dentro de nossas condições e realidade, com ajuste fino de primeira qualidade, pisando no acelerador quando preciso e freando quando necessário. Não tenho a menor dúvida de que ao fim do Governo Dilma teremos a menor taxa de juros das últimas décadas no Brasil , bem mais próxima dos padrões internacionais.
E aí voltamos para a Europa e Estados unidos. Lembro bem quando em dezembro de 2008, no auge da crise internacional, eu estava participando de um evento de cúpula que reunia alguns dos maiores investidores do mundo em Dubai, com a presença de vários Heads de Real Estate dos grande bancos de investimento. Era gritante a diferença de ânimo entre os emergentes, só éramos dois brasileiros, e os europeus e americanos. Lembro como se fosse hoje eu e um indiano explicando para o chefão do Morgan Stanley por que estávamos otimistas. Nunca me esquecerei da cara dele de “Senhor, perdoa-os, pois não sabem o que dizem”.
Pois é, aquele foi o começo da estagnação para eles. Ainda sofrerão muito e por longo tempo. Estamos vendo agora um fenômeno muito similar ao da “década perdida” vivido por nós nos anos 80 e 90. Só que desta vez na Europa.
Por outro lado, a crise de 2008 foi o começo de uma virada histórica na balança de poder econômico e político mundial que levará os países emergentes a um novo patamar.
E a lição disso tudo é que eles passaram vários anos mandando a gente fazer o dever de casa. Nós, bons alunos, fizemos. Mas eles não fizeram o dever de casa deles. É aquela estória, “Faça o que eu digo, não o que eu faço”.





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Karla Queiroz
Jeann Câmara