E se pudéssemos voltar a andar?

na Segunda, 02 Janeiro 2012. Postado em Felipe Cavalcante

Como tornar nossas ruas e calçadas mais amigáveis ao pedestre

Domingo passado fiz algo diferente, que nunca tinha feito antes em Maceió. Fui andando, com minha esposa e meu filho, para o restaurante almoçar.
Moramos em uma região bem servida de serviços, restaurantes, supermercados, farmácias, mas raramente vamos a pé até eles. Para ir na farmácia ou na vídeolocadora (ato pré-histórico que fazíamos antes da chegada do Netflix e do ITunes ao Brasil), distantes um quarteirão, sempre vamos de carro.
O fato é que nossas cidades estão ficando cada vez menos amigáveis aos pedestres. Esse é um fenômeno bem conhecido nos Estados Unidos, com seus subúrbios e “sprawls” e que vai se acelerar cada vez mais aqui no Brasil com o estouro da classe média e sua legítima sede por automóveis.
Mas, ao contrário do que pregam os urbanistas americanos, que se privilegia o automóvel em detrimento do pedestre, vejo que por essas bandas nordestinas também temos outras razões: segurança e calor.
Vejamos, em primeiro lugar, só consideramos a idéia de ir andando para o restaurante porque o tempo estava nublado e com uma brisa agradável. Se tivesse com o costumeiro sol de verão jamais teríamos considerado essa possibilidade.
Em segundo lugar, era meio-dia de um dia calmo. A distância curta. Era somente tirar os relógios, ir sem bolsa e com o mínimo na carteira. Mesmo que fossemos assaltados, o prejuízo seria pequeno.
Felizmente deu tudo certo e pude no caminho ir percebendo que tudo isso poderia ser diferente e que o urbanismo e os incorporadores podem ter uma influência muito maior na resolução desses problemas do que podemos imaginar. É isso, mesmo, você leu certo: não precisamos ficar esperando pelo esfriamento global ou que o poder público resolva o problema da segurança.
Vamos começar pelo mais simples: como baixar a temperatura de nossas cidades e tornar possível a vida dos pedestres longe do ar-condicionado dos automóveis? Simples. Plantar árvores. Mais especificamente: criar “ruas de árvores”. Para ser mais detalhista ainda: criar “ruas de árvores” com copa, que façam sombra.
Hoje já existe uma preocupação inicial em várias cidades de deixar parte da calçada como área verde. Porém, essa diretriz tem como pano de fundo muito mais a questão da impermeabilização do solo e drenagem urbana do que o conforto ambiental dos pedestres.
Assim, boa parte dos novos empreendimentos já plantam árvores ou deixam áreas verdes permeáveis em suas calçadas. O problema é que plantam as árvores erradas! Em vez de plantar árvores com copas e que façam sombra, plantam palmeiras ou árvores de pequeno porte.
Somente com essa pequena mudança teríamos dentro de alguns anos muito mais conforto ambiental e temperaturas mais amenas em determinadas ruas da cidade. O que não podemos é continuar plantando palmeiras, por mais imperiais e imponentes que sejam. As palmeiras estão entre as plantas que geram menos sombra e têm menos impacto na redução da temperatura. Várias cidades americanas, inclusive, já não permitem que sejam plantadas nas áreas públicas e em novos empreendimentos.
Porém, aqui o poder público precisa dar sua contribuição, acabando com esse emaranhado de fios sobre nossas calçadas. Enquanto eles existirem, continuarão reinando em metade da cidade as palmeiras e árvores de pequeno porte.
O segundo problema é um pouquinho mais complicado. Chama-se segurança. Ou melhor dizendo, sensação de segurança, já que são coisas bastantes distintas.
Óbvio que a responsabilidade sempre será do poder público e sempre precisaremos de polícia nas ruas e ruas iluminadas, mas aqui o urbanismo e os mercado imobiliário também podem dar sua cota de contribuição.
Em primeiro lugar, é fundamental haver “olhos e movimento nas ruas”. Não podemos ter paredões e muros contínuos nas ruas. Uma solução que tem funcionado desde tempos imemoriais é a existência de áreas comerciais nos andares térreos dos edifícios, em especial nas principais artérias e corredores de tráfico.
Alguns desses pontos comerciais serão lojas, outros restaurantes, outros escritórios. O que importa é que não mais teremos um longo paredão sem vida trazendo sensação de insegurança para quem anda naquela rua, mas uma rua vibrante, movimentada e repleta de “olhos nas ruas”.
Essa vibração é outro objetivo a ser alcançado, pois também ajuda na sensação de segurança. Mas, por definição, só consegue ser alcançado em lugares adensados. Precisamos aproveitar toda a infra-estrutura existente nas regiões centrais, tirar o máximo proveito dela, dando vida a essas regiões e, com mais gente nas ruas, aumentar a sensação de segurança de quem anda por ali.
Tenho plena convicção de que, enquanto parte da população gosta de morar em locais tranqüilos e afastados, a maior parte ainda prefere viver em lugares onde possa ir andando ao trabalho, ao lazer, às compras e à escola. Só é preciso ver a diferença entre morar no Leblon, com seus botecos, calçadas sombreadas, restaurantes e lojas, e morar na Barra da tijuca, onde se gasta 30 minutos para de carro para comprar pão no outro lado da Avenida das Américas.
E aqui vem uma boa razão para o mercado imobiliário abraçar essa causa. As pessoas pagam mais para morar bem, as pessoas pagam mais para ter qualidade de vida. E hoje no Brasil, nada espelha isso melhor do que o próprio Leblon.
Abaixo, seguem algumas fotos da minha caminhada para o restaurante. Todas foram tiradas em dois quarteirões ao redor do meu prédio. Por favor, não prestem atenção à sujeira e ao esgoto nas ruas. Isso não merece nem comentário.


Que tal alguns flamboyants no lugar dessas palmeiras fênix? Nenhum custo adicional, mais sombra e muito melhor para se caminhar.


Vejam a diferença que fica quando temos árvores plantadas, mesmo sendo as insípidas Ficus.


Não tem como plantar árvores para criar sombras enquanto isso existir.

Aqui até que foram plantadas árvores, mas no lugar errado. Elas devem ser plantadas junto à rua, separando esta do pedestre.

Paredões dos dois lados da rua. Sem “olhos na rua” aumenta nossa sensação de insegurança. Imagine andar nessa rua de noite, ainda mais sabendo como nossas ruas são mal iluminadas. Um convite para os gatunos.

Praticamente todo o perímetro do prédio é um paredão. Não poderíamos ter uma loja ou um restaurante em parte desse paredão? Este prédio está localizado em uma avenida com grande fluxo de veículos e vocação comercial.

Comentários (1)

  • josé paulo gaspar aranha

    17 Abril 2012 às 16:22 |
    Felipe! sempre pensei nisso, em fazer comentários desses projetos e arruamento vc deve ser um cara legal! taí aprovado seu blog. Vou ser seu seguidor.

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