Sem acesso não existe turismo! Simples assim.
Subsidiar vôos charters e regulares deveria ser uma prioridade do Poder Público
Esta semana fui surpreendido pelo anúncio de que a EMBRATUR finalmente iria apoiar vôos charters. Fiquei eufórico. Há muitos anos temos tentado sensibilizar o Governo Federal para a importância de incentivar e subsidiar os vôos, sejam charters, sejam regulares, como forma de desenvolver destinos turísticos.
Daí minha alegria, pois a EMBRATUR sempre rechaçou esse tipo de iniciativa como sendo de responsabilidade unicamente do mercado. Achei que tinha sido uma mudança de rumo muito bem-vinda. Porém, ao ler a portaria da EMBRATUR, vi que eles realmente ainda não tinham ido tão longe.
Na verdade, eles vão dar apoio promocional aos estados na captação de vôos fretados, através da realização de eventos, campanhas publicitárias, material promocional, fantours, entre outras ações importantíssimas e que são sempre demandadas pelas operadoras turísticas e de vôos fretados.
É, sem dúvidas, grande iniciativa, mas ainda está bem distante do ideal, até por ser apenas um Projeto Piloto. O fato é que não existe turismo sem acesso. Simples assim. Da mesma maneira que não existe turismo sem hotel. Portanto, não faz sentido promover campanhas turísticas para destinos que não tenham meios de hospedagens disponíveis ou que não tenham meios de acesso.
E muitas vezes o mercado não é suficiente para corrigir distorções. Da mesma maneira que a INFRAERO subsidia dezenas de aeroportos deficitários com o lucro de alguns poucos, e as companhias telefônicas e elétricas são também obrigadas a fazê-lo, é fundamental que os vôos fretados para destinos incipientes sejam subsidiados. O mercado sozinho não o fará.
Ou seja, quando o poder público tem interesse em desenvolver um destino turístico ele precisa não somente fazer campanhas publicitárias e capacitações, mas investir na captação de vôos. Foi assim que fizeram vários destinos em todo o mundo. Em alguns casos mais extremos foram criadas companhias aéreas, como em Dubai, com a Emirates.
Alguns são contra os vôos fretados, pois são voltados para o turismo de massa. É verdade, e é fundamental que os governantes e a sociedade decidam se querem esse tipo de turista. Em alguns casos, o destino pode não ter perfil, mas em outros casos, pode ter sim.
Existem ainda os casos onde os vôos fretados iniciam um processo de desenvolvimento turístico de uma região, inicialmente através dos vôos charters e resorts all inclusive, que posteriormente começa a tomar outras formas. Vi isso na república Dominica e em Cancun/Riviera Maya.
Inicialmente povoada de resorts all inclusive, com o passar do tempo, e graças à facilidade de acesso desencadeada inicialmente pelos vôos charters, a República Dominicana começou a receber empreendimentos de alto padrão com resorts integrados a empreendimentos imobiliários administrados por grande bandeiras hoteleiras internacionais.
Na Riviera Maya isso fica ainda mais claro. Beneficiada pelo acesso fácil a Cancun, com seu turismo de massa, a Riviera Maya começa a desenvolver nos últimos tempos um turismo mais qualificado e sustentável, recebendo resorts com bandeiras de altíssimo luxo, como Rosewood, Mandarin Oriental, Fairmont e Banyan Tree.
Está certo que mantido o cenário atual de crise econômica na Europa, a necessidade de vistos para americanos e o Real forte, nenhuma ação, promoção ou incentivo irá aumentar de forma acentuada o fluxo de turistas de lazer para o Brasil. Mas poderá, sim, fazer uma grande diferença em determinados destinos de lazer, especialmente no Nordeste, que tenham feito seu dever de casa, possuam a estrutura adequada e a vocação para esse tipo de turismo.
Além disso, entendo que o incentivo financeiro para a atração de vôos charters não deveria ser exclusivo para turistas internacionais. Ao contrário, dificilmente teremos destinos sustentáveis no longo prazo apenas baseados em turismo internacional. Acredito que devemos aproveitar a grande força do nosso turismo interno e incentivar vôos charters saindo de Belém para Maceió, de Goiânia para Natal, de Porto Alegre para Aracaju.
Subsidiados, sim, pelo Governo, quando isso for do interesse público. Porque se dá incentivo para hotéis porque geram emprego e não se dá incentivo para que alguém traga os turistas para esses hotéis? Alguém precisa lembrar aos governantes que sem vôos os turistas não chegam aos hotéis, que sem acesso não existe turismo.










